quarta-feira, 17 de julho de 2019

Havemos de nos cruzar ainda

Eu ainda tenho esperanças que seja apenas um acaso o facto de não nos termos cruzado
Ainda e assim por acaso, num sítio qualquer por aí no tempo

Nada do que virá será parecido ou semelhante ao que já poderia ter sido antes
Não sinto necessidade de recitar juízos de valor
Não há imperativo em reafirmar as certezas
Nem vantagem em esvurmar o que ficou, já tão longe!
Essa distância em relação ao que nos distingue é quase abismal e as estórias do passado parecem-me também a esta distância inverosímeis
É um quase mundo novo onde na verdade sempre vivi
Não aclamo nenhuma espécie de ascensão ou nirvana
É uma coisa quase casual e quotidiana

Sigo num caminho sem desespero na busca
Sentem o solo as plantas dos pés que assentam com segurança
Há convicção, firme certeza e perseverança
Chegamos a vários lugares quando vamos a caminho
 no caminho, vive-se a vida.
Eu tenho a certeza que nos vamos cruzar por aí, onde ainda não fomos,
Onde ainda não somos.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Asas


E eu, por instante desejo
desejar suster um instante
sob uma árvore de copa grande, frondosa
encostar no ombro de um amante
e olhar até onde já nada me fosse distante
paisagem deslumbrante deliciosa

mas mantenho-me serena e inquietante
sem carecer de ombro nem amante
urdindo na mente o passo
latente no coração batendo no raciocínio
beijando na intenção padecendo com a terra o silencioso morticínio

ergue-se um amanhecer de vontade
e o crepúsculo, é porém um renascer novo
espreguiça-se ociosa a borboleta
que é condor afinal
voa de largas asas a vontade imortal.

L.C.







terça-feira, 9 de abril de 2019

Terra e Tempo


Em passos leves
Toco o chão de terra
Há quanto tempo não te chamo,
Como chamava antes?

não abandonei
Mas eu hoje sei
Que estive sempre
Como mais um ramo dos caules
Ínfimo grão das areias
Breve fio das teias

Chamo no orvalho
No frio
Na secura do deserto
Chamo e não sinto perto
Como se a terra partisse de mim

Admiro da pequenez
E encosto-me teu peito até que me queiras absorver para teu ventre
Terra minha de onde nasci.

Perdem a doçura as palavras
E o vento levou as melhores frases por nascer
E eu passei quase meia vida
neste modo de desviver

Desventram-te.
Secou-me tudo como te secam a ti as fontes
a mim, me secaram as frontes

Vento árido.

Levam em pedaços os rochedos
As rajadas aos poucos
E eu que perdi os meus medos
não tenho voz
nem vós me tendes segredos
E para quê? Para quê saber a verdade?
Sei-a desde sempre
Não que isso traga felicidade
 o segredo, sempre foi sorrir e manter a idoneidade
Ser terra ser tu, barro do barro
Seiva do caule
Fogo o mal
Musgo e giesta, meu corpo floresta
ventre  vale, sulco e mar
flor bolbo botão brotar
mover viver mudar
e o tempo imenso colossal
enorme envolve e dorme.

exígua ou insigne  preponderante a eternizar
só uma areia no areal.

Lúcia Cunha

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Rio vazio


Fico entre os meandros das coisas
Sem me perder.
Esfrego os olhos e sacudo a alma para ver.

Ainda sei para onde vou,
Ainda sei porque estou.
E, esta noite sonhei com leitos de rios
Secos e vazios,
 peixes mortos nas margens...

Ainda sei para onde vou.
(Se não vens, não sei que te prende.)

E aqui, nada ainda é suficiente,
às vezes falta a força do sentir,
falta o tempo para ouvir...
E tanto ainda que não se aprende!
E, às vezes, ainda é preciso
ser-se canivete suíço
fazer o pino sempre com um sorriso.

A urgência das coisas precipita-se
sem nos dar descanso
o tempo avança
e  nós precisamos da serenidade e da perseverança
da celeridade e da alegria de uma criança

e o tempo avança
e eu sonhei com leito do rio vazio
que não se vai-a de mim, também a água que banha a alma
que não se implante em mim apenas silêncio em forma de calma
que o lodo não me toque as veias
e que ainda me sobre áurea de tornar melhores as coisas feias.

 Lúcia Cunha



quinta-feira, 21 de março de 2019

a poesia da Luta


As palavras adentram-se na noite como esguios filamentos,
Não sei se sonhamos ou se tudo isto só são pensamentos.

Fica-nos nas mãos o embalo da luta, efeito de inercia,
O corpo ainda se debate em movimento e relutância
Não há descanso, não há paragem, não há morte!
É a luta é a militância… é tão bonita a luta camarada,
com junta a gente de sul a norte.

As palavras dançam-nos na boca
Quase em tropelia, quase à pura sorte…
Ficam-nos presas no silêncio até à revolta de um dia!
Fabrica no pensamento, operária que parece rendida,
Ao ritmo da montagem, a revolta de toda a vida.

Rompem do silêncio as mãos em luz
Que desistiram de pedir ajuda a Jesus
Rompem do silêncio os braços da força
A fazer o destino, a impedir que se sofra.

é tão bonita a luta camarada…
e há lá melhor poesia do que vir à rua a revolta eriçada?


e que a operaria fabrique dentro de si palavras maresia,
e que venham de dentro as palavras para que a luta não seja vazia.


Lúcia Cunha

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O que me abruma e me abisma


Ah o que me abisma e me abruma
É pensar-me tocada pelo teu corpo
E por todo o vazio do teu pensamento
Esse acéfalo, ausente raciocínio proveniente
De qualquer neurónio morto
abentesma jacente
que em vez de face é só escroto


ah mas o que me abisma e me abruma
são os salamaleques, os berloques e os berliques
que tecem e teces… imenso oco intenso
um cheio de nada espremida espuma
folha de sumaúma

o que me abruma, abantesma
e ver-me a mim mesma
envencilhada num parecer
que mais parece um empecilho
que não deixa nascer nem ser isto nem aquilo



Lúcia Cunha

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Não quero chamar anjos nem musas


Não quero chamar anjos nem musas
Nem sofrer de males eternamente
Há de me estar algures a vontade de sempre
Já perdemos muito tempo
Ou só o tenhamos vivido.
Sem que cada momento
Seja um demónio vencido.

Foi feito o tempo para passar
E a ponte para continuar.
Então passa, continua… ao ritmo que for para dar,
Sem atabalhoar, espera se for preciso esperar.