terça-feira, 9 de abril de 2019

Terra e Tempo


Em passos leves
Toco o chão de terra
Há quanto tempo não te chamo,
Como chamava antes?

não abandonei
Mas eu hoje sei
Que estive sempre
Como mais um ramo dos caules
Ínfimo grão das areias
Breve fio das teias

Chamo no orvalho
No frio
Na secura do deserto
Chamo e não sinto perto
Como se a terra partisse de mim

Admiro da pequenez
E encosto-me teu peito até que me queiras absorver para teu ventre
Terra minha de onde nasci.

Perdem a doçura as palavras
E o vento levou as melhores frases por nascer
E eu passei quase meia vida
neste modo de desviver

Desventram-te.
Secou-me tudo como te secam a ti as fontes
a mim, me secaram as frontes

Vento árido.

Levam em pedaços os rochedos
As rajadas aos poucos
E eu que perdi os meus medos
não tenho voz
nem vós me tendes segredos
E para quê? Para quê saber a verdade?
Sei-a desde sempre
Não que isso traga felicidade
 o segredo, sempre foi sorrir e manter a idoneidade
Ser terra ser tu, barro do barro
Seiva do caule
Fogo o mal
Musgo e giesta, meu corpo floresta
ventre  vale, sulco e mar
flor bolbo botão brotar
mover viver mudar
e o tempo imenso colossal
enorme envolve e dorme.

exígua ou insigne  preponderante a eternizar
só uma areia no areal.

Lúcia Cunha

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Rio vazio


Fico entre os meandros das coisas
Sem me perder.
Esfrego os olhos e sacudo a alma para ver.

Ainda sei para onde vou,
Ainda sei porque estou.
E, esta noite sonhei com leitos de rios
Secos e vazios,
 peixes mortos nas margens...

Ainda sei para onde vou.
(Se não vens, não sei que te prende.)

E aqui, nada ainda é suficiente,
às vezes falta a força do sentir,
falta o tempo para ouvir...
E tanto ainda que não se aprende!
E, às vezes, ainda é preciso
ser-se canivete suíço
fazer o pino sempre com um sorriso.

A urgência das coisas precipita-se
sem nos dar descanso
o tempo avança
e  nós precisamos da serenidade e da perseverança
da celeridade e da alegria de uma criança

e o tempo avança
e eu sonhei com leito do rio vazio
que não se vai-a de mim, também a água que banha a alma
que não se implante em mim apenas silêncio em forma de calma
que o lodo não me toque as veias
e que ainda me sobre áurea de tornar melhores as coisas feias.

 Lúcia Cunha