quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

a noite fartou-se de mim e mandou-me deitar

a noite fartou-se de mim e mandou-me deitar

vejo-te longe
numa nesga de ecrã e pareces pequeno, mais que o habitual
e eu sei-te grande
ou sinto-te?

a intensidade do ruído a pressão metálica e barulhenta das coisas faz fracos os homens bons
precisamos estar juntos
e seremos fortes como os juncos
meu amado irmão

sejamos humildes
escrevemos a minúsculas grandes palavras pequenas limpas como beijos na testa

a noite fartou-se de mim e mandou-me  deitar
e até os cães estranharam a minha presença
e a noite cansada dorme

vejo-te pequeno nas palavras bonitas que dizes
como se não fizesse mal ser pequeno nem fizesse falta dizer grande coisa

e imagino como seria deitar-me a teu lado
na pequenez bonita dos dias grandes
nas vidas curtas
e
já não preciso de te ver grande apenas assim
tu, sendo tu, eu igual a mim

irmão amado



quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O nascer do Sol

Nada vai ocorrer se ficar presa na areia sem me mexer.
As músicas do Azambujo dizem coisas de mim, porque são musicas que dizem coisas de toda gente. De momento servem para reafirmar a minha vontade de não ficar presa na areia e caminhar, finalmente, na jovialidade dos dias loiros, grisalhos ou verdes. Posso voltar a usar as palavras como quiser, sem medo e elevá-las leves, sem queixume, sem medo...
A Luísa diz que "Todo o poeta ou escritor/Todo o actor ou escultor/Sonha um dia amar assim/Sonha ter alguém para si". E eu volto ao princípio e aos meus princípios sem ser um regresso a qualquer ponto, mas antes a lembrança dos meus próprios enunciados: "sempre fiz tudo por amor". Não posso continuar esta estrada se não voltar a pôr amor na bagagem, untar com ele as botas de caminhada, proteger a pele com ele,pô-lo nas mãos, na enxada...
Amanhã, vou de novo olhar de frente para o caminho, fazer o que tiver que fazer, não fazer nada por fazer e recordar que é por amor.
Quando as folhas caírem eu ainda estarei lá e que seja o amor que me ajude a persistir de pé, em pé e a pé.
  Lúcia Cunha

domingo, 29 de dezembro de 2019

A rapariga que gostava de comboios

Pediu-lhe uma folha de rascunho, como quem precisava em desespero escrever.
Pediu-lhe uma folha de rascunho como quem pede um cigarro em desespero ou em desespero precisa de um beijo.
Pediu-lhe, por favor, uma folha de rascunho, porque era urgente ter algo mais que um guardanapo para escrever.
Pediu-lhe uma folha de rascunho como quem suplica que lhe acariciem o seio naquele exacto momento que tem necessidade de uma folha de papel para suspirar em letras húmidas palavras a tinta negras.
Pediu-lhe uma folha de rascunho e esperou. Enquanto, ele procurava desesperadamente uma folha de rascunho entre textos de estudos exactos e proficiente de coisas simples da vida, daqueles estudos que tentam enganar a verdade. Sob esses textos ela viu nas suas mãos uma necessidade de encontrar para ela uma folha de rascunho... podia ter dito apenas que não tinha folhas de rascunho,  mas ao invés procurou num tremulo imperceptível com a ânsia de quem quer saciar uma sede... e disfarça essa quase incapacidade.
Ela pediu-lhe por favor uma folha de papel de rascunho e ele precisava dar-lhe essa folha de papel.
Ele vasculhou todo o documento e ela esperou.
Ele encontrou uma contracapa, ela encontrou-o a ele que tinha uma folha de rascunho...
 e por instantes ambos quase saciavam a sua sede.
Lúcia

Ferrovia

Sabemos ambos meu amor que a frescura das flores ficou além, noutra estação.
Mas, porque não partimos por momentos numa viagem nova
que nos leve de nós
ou até nós, sem nós,
talvez, aí encontrássemos o nosso sítio e algo que seja quase o lugar.
Esse encontro geométrico sem consciência das linhas...
o lugar em que as condições sejam favoráveis,
ainda que porém descubramos que no final, e isso possa parecer cliché,
foi a própria viagem meu amor que nos preencheu de frescura e esperança.

da Lúcia 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

vai longa a noite

vai longa a noite
e se eu pudesse dizer a essa nesga verde
de gente que ainda conserva algo de terno e puro
se eu pudesse abanar esses juncos moldáveis
tenros e inquebráveis

se soubessem esses mancebos
que vão ociosamente para o matadouro
e rebeldemente em manda se afastam do âmago de si mesmos...

sentir que os abraça a putrefacção
como mácula asquerosa

sai de mim em desespero
um quebrar gutural
como se de vós
sai-se um anjo para salvar a voz
de algum mal

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

a utopia feita verbo

às vezes fico indecisa se anseio pelo anseio
ou se a ansia de ansiar é só coisa de tolos

borboletas no estomago é uma coisa de acidez e de foro gástrico
nem mais nem menos

o resto que seja impulsivo não é mais que instinto resquício do que em mim é animal

há em mim ainda uma que sou eu que me luto dentro
e por fora sou luto resultado do tormento

há uma parte de mim que avassaladoramente me avassalou
e me tornou vassala... porém não sei se vá ou fique


tem de mim terra o que ainda te sirva

tem de mim vento o que ainda seja leve

tem de mim água apenas o que se dissolva

 e tu sol faz que de mim se dissipe o que de mim reste
nada do que de fora venho me acende a alma
esta já só aquecerá por dentro
não há canção, nem evento
que me faisque a vontade

era tão fácil ficar deslumbrada
e tudo muda à medida que a Terra se vai tornado ocre
e depois bafejada pela humidade e pelo húmus

quando voltar a magia será
apenas realidade
num pouco o que era tanto
se tudo for mais coeso se for concreto
se tudo for mais forte se for perto
a utopia feita verbo
submete-se ao risco do desencanto


Lúcia




sem fogo na madrugada

há muito que não visitas as salas vazias do teu intimo
sempre pensei que as chamas do fogo
fugazes ou intensas seriam
chamas sempre

apagou-se a lareira e já é tarde para voltar a tear fogo
em breve pretendo tombar e tomar o descanso

sentir sempre falta daquilo que nunca foi

um incompleto eterno

só pode estar na hora do desaconchego
e chegar finalmente onde me chego

saberás tu quando será a hora da chamada?

saberei eu saber quando for chegada
a hora que procuro que seja sem demora?

há momentos que me pareces parte do que é tudo
porque jamais será tudo apenas alguém
sabendo agora de antemão que o mar é grande e o infinito vai para além da imensidão

há momentos que me pareces ideal para caminhar a par
outros por mera volúpia percebo que te queria a chegar

não se coaduna já o corpo a uma alma tão arranjada e viçosa
talvez não
ou então chego apenas à conclusão que já caminho num só pé
desde o cume ao sopé ou simplesmente caminho sempre só e em pé
ou apenas com o que seja mais próximo e com toda a multidão

não vejo razão para voltar a reacender a lareira, vai longa a velada
já chega de prantos, de prados e trabalhos até longa madrugada.

Lúcia